Território Inimigo
Literatura, História e Numismática. Sítio de Goulart Gomes, o criador do Poetrix.
CapaCapa
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
PrêmiosPrêmios
Livro de VisitasLivro de Visitas
ContatoContato
Textos

QUANDO A LIBERDADE ABRE AS ASAS SOBRE O ESCRITOR
QUANDO A LIBERDADE ABRE AS ASAS SOBRE O ESCRITOR

Goulart Gomes


Terminar de escrever um livro é libertador, nos faz sentir exatamente o que queria dizer Nietzsche com a afirmação “escrevo para me livrar das ideias”. Na ficção, isso vai ainda um pouco mais longe, porque também nos “livramos” das personagens. Nunca concordei com a ideia que as personagens “ganham” vida própria. No meu caso específico, elas “têm” vida própria. Nós, como autores, é que ficamos insistindo em mudar as histórias que são delas. Quando começamos a tomar um caminho, e a personagem quer seguir outro, somos nós que estamos enviesando o traçado original, pegando um atalho. Se na história da personagem ela vai morrer no final, não adianta ficar insistindo em salvá-la. É a sua sina, como todos temos as nossas. As personagens nos fazem escrever torto por linhas certas. Seja um processo anímico, mediúnico, psíquico ou, simplesmente, literário, as histórias que contamos não são nossas: são delas. Por isso, acho que no escrever há um delicado equilíbrio de emoções. Há um prazer no criar, um gozo, mas também existem os sentimentos das personagens, que precisamos sentir para expressar: raiva, medo, tristeza, alegria, decepção, depressão, euforia, asco, solidão, angústia, ansiedade. É nisso que o texto ganha veracidade. A mente do escritor fica igualzinha à daquela menininha do filme Divertidamente: a cada momento um sentimento assume o controle, que é muito mais da personagem do que seu, mas que lhe afeta. Quando colocamos um ponto final na história (ainda que temporariamente, porque habitualmente muitas releituras e correções serão feitas) parece que nos libertamos e as libertamos. Elas passam a ter sua própria existência, independente do autor, e vão ganhar novas interpretações sob o olhar dos leitores. Suas histórias (e não, nossas) serão lidas e relidas, contadas e recontadas. Algumas até se tornam imortais: Capitu, Gregor Samsa, Dom Quixote, Gabriela, Tom Sawyer, Raskholnikov, Anna Karênina, Padre Amaro, Madame Bovary, Jean Valjean, Ali Babá, Sandman... estão livres por aí. Quando o autor termina um livro, abre a portinhola da gaiola. Ele liberta e se sente livre por libertar tantos seres que conhecia e aprisionava dentro de si e que ele gostaria de compartilhar com o mundo. É necessário que eles partam, para que outros cheguem. Bem sabia Fernando Pessoa, viver não é preciso. Preciso é criar.
Goulart Gomes
Enviado por Goulart Gomes em 23/03/2016
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Autor: Goulart Gomes). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários