Território Inimigo
Literatura, História e Numismática. Sítio de Goulart Gomes, o criador do Poetrix.
CapaCapa
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
PrêmiosPrêmios
Livro de VisitasLivro de Visitas
ContatoContato
Textos


A LEITURA COMO UMA FORMA DE FELICIDADE
Discurso de posse
GERANA DAMULAKIS
 
Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros; há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água; ao que me refere, sou incapaz de imaginar sem livros um mundo.
Jorge Luis Borges
 
Li muito, leio muito, estou sempre lendo, não saio de casa sem um livro, espero que chamem a minha senha seja lá onde for, lendo. Decidi ler há muito tempo. Assisti meus pais comporem a vasta biblioteca da nossa casa aos sete anos. Foi uma construção fascinante, tanto tijolo a tijolo, porque meu pai, o engenheiro Gerácimo Damulakis foi o criador da casa, mas livro a livro, e por tal razão tenho uma falha enorme no meu cabedal de leitura – a literatura infantil. Não li Lobato, como os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa e Luís Antonio Cajazeira Ramos. Li o Charles Dickens de Oliver Twist e David Copperfield. E li muito Cervantes, a ponto de talvez ter aprendido, tal qual o Cavaleiro da Triste Figura, a olhar para moinhos de vento e imaginar o que desejasse.
E comecei a escrever com a mesma idade. Mas a sensação de que não poderia viver sem ler me tomou ao terminar o livro Pedra Bonita, de José Lins do Rego, e fechá-lo com muita força, dizendo alto: “É isso que eu quero: ler”.
 A vontade de ir até o fim de tudo é uma característica minha; portanto, um livro apenas de determinado autor com vasta obra não me basta para pensar sobre sua literatura; preciso sempre adentrá-la e completá-la. Assim que, adolescente, devorei Hermann Hesse, autor prolífico, e um dia o irmão de minha mãe, meu padrinho, o jornalista Flávio Costa, companheiro do acadêmico João Carlos Teixeira Gomes no Jornal da Bahia, considerando que todas as vezes que lá em casa chegava, me encontrava lendo Hesse, disse para minha mãe: “Eliana, não deixe ela ler Hermann Hesse, ela precisa ler os russos”. Minha mãe não proibiu nada, claro, mas eu absorvi o conselho e no dia seguinte comecei a minha jornada rumo à literatura russa; afinal, estava ali à minha disposição a Obra Completa de Dostoiévski, pela José Olympio, vários tomos em capa dura, traduzidos do francês, por exemplo, por Raquel de Queiroz. Levei três anos lendo os russos: Tolstói, Tchekhov, Turguêniev. Anos depois, reli quase tudo, principalmente Dostoiévski, em tradução confiável de meu amigo querido Boris Schnaiderman, que me enviava os exemplares assim que eram editados na Coleção Leste, da Editora 34. Creio, como Júlio Cortázar, ser a literatura como um grande casarão com muitas janelas e de cada janela, ao ser aberta, a paisagem se mostrará através de ângulos diversos. Um dia abri a janela da literatura russa, já na última década abri, também fascinada, a janela da literatura japonesa, de Soseki a Kawabata e Junichiro Tanizaki, Yukio Mishima até Haruki Murakami.
Visto em certo momento da minha vida, parece que há um caminho claro: a adolescente leitora, que escreve poemas, que assina artigos no jornal do Colégio Marista. Mas a mesma adolescente tira nota 10 nas 4 unidades do ano, ano após ano, em química e em matemática. E eis que chegou o ano do vestibular. O professor Jaime Barros me deixava encantada com suas aulas sobre os livros da lista, que eram 10, e em abril eu já havia lido todos e me extasiado com Corpo Vivo, de Adonias Filho, com O Reduto, do acadêmico Wilson Lins. Outro professor que me encantava era o acadêmico Waldir Freitas Oliveira, de quem fui aluna duas vezes, no Marista e na UFBA. Na aula seguinte, entrava outro Valdir, o professor de Química, e sob o feitiço das letras e números, encontrei a combinação de ambos nas fórmulas das substâncias e dos compostos químicos. Na inscrição para o vestibular, selecionei o bacharelado em Química, não sem antes ser chamada à sala do diretor, Irmão Aquiles, para ouvir dele a profecia certeira: “Você vai errar, deveria escolher Letras ou Jornalismo. Você só seguirá a carreira de química se for para escrever sobre química”. Ora, não se escreve sobre química sem a prática da química.
Foram anos inesquecíveis no meu Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia. Anos felizes. Conheci, na fila da matrícula, aquela que chamo de minha amiga da vida inteira, Vanja Pereira Morais, e professores marcantes como Lourdes Trino e Adelaide Amorim, de quem fui monitora em Análise Química I,  o professor Miguel Fascio e a beleza de sua fito-química e o professor Antônio Celso Spínola Costa que, um dia, enquanto nós, alunos, realizávamos alguma tarefa dada por ele, ouvi-o comentando com outra professora: “Vão dizer que é por ela ser minha prima, mas o que posso fazer, apenas a prova dela merece S” – naquele tempo, a nota máxima na UFBA era S. Não vou usar de falsa modéstia, aquela conversa foi importante para mim, afastou as dúvidas.
Graduada em Química, parti para Madrid. Fiz a pós-graduação no Instituto Juan de la Cierva, em Plásticos y Caucho, e Ressonância Magnética do Carbono 13, na Universidad Autónoma de Madrid. E li muito Balzac, nos muitos volumes de A Comédia Humana comprados na maravilhosa livraria Espasa Calpe, da Gran Vía. E a profecia de Irmão Aquiles foi cumprida. A química no dia a dia de uma fábrica me pareceu insuportável, só trabalhei 3 meses na FAVAB. As letras com os números das fórmulas químicas já tinham sido suficientemente experimentadas. Era hora de voltar para minha UFBA: “Que tal apenas os números?”, me perguntei. Comecei a cursar Economia. Durante todas as fases – e a vida é cheia de fases, o importante é saber conviver com elas, como dizia meu pai, continuei escrevendo. Já não escrevia no meu caderninho de capa dura cor de vinho tinto, com páginas cor de rosa, que meu pai me deu aos 8 anos para os meus poemas. Passei a figurar em muitas antologias editadas pela Shogun Editora e Arte, do Rio de Janeiro, intituladas assim: Poetas Brasileiros de Hoje, A Nova Literatura Brasileira, Antologia Poética de Cidades Brasileiras, A Nova Poesia Brasileira, propriedade de Christina Oiticica, mulher de Paulo Coelho.
Kairós, em grego antigo, significa o momento oportuno, certo, ou supremo; na mitologia é filho de Chronos, deus do tempo e das estações. Enfim, a seguir, o meu kairós: o cunhado de meu irmão, André Kruschewsky, fez uma exposição de suas telas. O catálogo trazia um texto assinado pelo acadêmico Carlos Eduardo da Rocha, crítico de arte. Os pais de André, Tancinha e Juarez Kruschewsky, sogros de meu irmão, portanto, fizeram um jantar para o poeta. Na ocasião, o acadêmico Carlos Eduardo da Rocha interessou-se em conhecer meus poemas. Ele estimulou a edição em livro, foi meu prefaciador e assim o volume Guardador de Mitos se tornou uma realidade.
Há um quarto de século frequento esta casa. Vim a convite desse saudoso acadêmico, poeta Carlos Eduardo da Rocha. Daí em diante a Academia exerceu um papel importantíssimo em minha vida, transformando-a. Algo que sentimos quando se sabe, finalmente, que não se precisa mais buscar. Em seguida, o acadêmico James Amado foi o grande incentivador para que eu escrevesse meu livro sobre a poesia de Sosígenes Costa, inclusive foi James quem deu o título O Poeta Grego da Bahia, que era como ele chamava o poeta de Belmonte, cujos versos trazem muito da mitologia grega. Além disso, o acadêmico James Amado me apresentou ao poeta e ensaísta José Paulo Paes, com quem travei grande amizade, não apenas pela admiração em comum relativa a Sosígenes Costa, mas pela afinidade em relação a uma visão crítica que partilhamos de perto, a ponto de José Paulo Paes enviar seus livros, assim que eram lançados, diretamente para mim, com o fim de vê-los resenhados no Suplemento Cultural de A TARDE.
Assim como um dia me julguei poeta, também me julguei contista. Com o conto intitulado “Fascinação” ganhei o Prêmio País do Carnaval, no concurso 80 Anos de Jorge Amado, em 1992. O meu amigo, o poeta falecido Daniel Cruz, me disse para ir ao jornal A TARDE procurar pelo poeta Florisvaldo Mattos e mostrar o conto premiado. A empatia entre nós dois foi imediata e Florisvaldo publicou meu conto no Suplemento Cultural. Mas era apenas o início porque daí por diante fui colaboradora do suplemento por mais de 10 anos. Nunca será suficiente meu agradecimento a Florisvaldo, ele imediatamente identificou a leitora e a satisfação e o prazer da leitura no meu texto. Logo após a publicação do conto, o suplemento homenageou Clarice Lispector e aqui inicia outra parceria: o texto de Hélio Pólvora e o meu texto, tantas e tantas vezes lado a lado. Hélio estava no sul da Bahia, logo voltaria a residir em Salvador e nos conhecemos. Outro início: o início de uma amizade, de um aprendizado para mim, de uma cumplicidade literária. Hélio começou a frequentar esta casa e pelo caminho, posso dizer que nossas conversas eram como aulas para mim, a cada vez dialogávamos sobre algum escritor: sentíamos a inteligência evidente de um Nabokov, insistimos na leitura de novelas, em uma volta a Balzac, analisando-as com admiração, foram tantas conversas e conversas.
Igualmente por iniciativa do acadêmico Florisvaldo Mattos, comecei a entrevistar escritores, sendo o primeiro deles, o novo acadêmico Hélio Pólvora, por ocasião de sua posse nesta casa em 1994. Nos 20 anos seguintes, entrevistei, para vários veículos, escritores como os acadêmicos Antônio Torres e Myriam Fraga, mas as entrevistas com Hélio totalizam sete vezes, cada uma focando dada vertente de sua obra, a ficção, a crônica, a crítica, sendo a última realizada em 2012 para o Jornal Rascunho, editado pelo escritor Rogério Pereira, no Paraná. Mas, entre elas, há uma que se deu em deliciosa tarde na minha casa e da qual apenas participei com algumas perguntas, pois foi uma entrevista para o livro do professor Suênio Campos de Lucena, a fim de compor seu volume 21 Escritores Brasileiros – uma viagem entre mitos e motes, editado pela Escrituras.
Outro estímulo que não esqueço veio da confiança na minha visão crítica por parte do acadêmico João Carlos Teixeira Gomes quando, em 1994, me passou os originais da coletânea de contos O Telefone dos Mortos, ainda não lido por qualquer outra pessoa. Um livro extraordinário que tive a honra de ser a primeira leitora.
 Há mais: a saudosa acadêmica Consuelo Novais Sampaio foi quem indicou meu nome para fazer parte da comissão editorial do Selo Letras da Bahia, da Fundação Cultural do Estado, onde permaneci, junto com os acadêmicos Hélio Pólvora e Waldir Freitas Oliveira, por 8 anos, até o término do Selo.  Pelo Selo ganhei afilhados literários: Kátia Borges, Flamarion Silva, Fred Matos, Lúcia Santori, Carlos Vilarinho, a querida cronista Regina Oliveira, saudosa esposa do acadêmico Waldir Freitas de Oliveira e outros que não eram inéditos, mas que considero também afilhados, como Vladimir Queiroz e José Inácio Vieira de Melo. O jogo entre uma memória que puxa e um esquecimento que empurra é jogo inútil, o esquecimento acaba por ganhar sempre, nas palavras de José Saramago, em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Posso esquecer alguns nomes que também apreciamos, mas na época, trocávamos nossos entusiasmos, o acadêmico Hélio Pólvora e eu, de modo que aplaudi seu parecer para os livros seguintes: o volume de contos de Mayrant Gallo, Pés Quentes nas Noites Frias, e de ensaio sobre a obra de Herberto Sales, de Ângela Vilma.
Meu 3º livro, O rio e a ponte – à margem de leituras escolhidas, é uma reunião dos textos mais extensos que foram publicados no Suplemento Cultural do jornal A TARDE. Resultado de um caminho que, como digo sempre, se existe uma Gerana que observa e avalia a literatura, que escreve tantos prefácios e orelhas e mais de uma centena de resenhas, e integra comissões julgadoras de prêmios literários, é porque um dia, lá no ano de 1992, Florisvaldo Matos me mostrou qual era aquele caminho que se faz ao caminhar, ao modo do verso de Antonio Machado.
Mais uma prova de confiança em minha visão crítica veio por parte do professor Cid Seixas, que escrevia a coluna fixa semanal no Caderno 2, do jornal A TARDE, quando passou para mim a responsabilidade de assinar a coluna. Foram quatro anos seguidos no Caderno 2, quando aproveitei a Leitura Crítica, assim era intitulada a coluna, para focar na literatura que estava sendo produzida pelos escritores baianos. Em 2007, fui para o jornal Tribuna da Bahia, por indicação do escritor Ildásio Tavares, e ali a coluna, também semanal, se chamava Olho Crítico.
Logo mais, o acadêmico Hélio Pólvora, conseguiu, junto a Maria Luiza Nora, a edição da Antologia Panorâmica do Conto Baiano - século XX, pela Editus, editora da UESC, Universidade Estadual de Santa Cruz, que veio a ser utilizada e trabalhada pelo acadêmico Aleilton Fonseca na Universidade Estadual de Feira de Santana, a ponto de esgotar a edição.
Há 10 anos perdi meu pai e também perdi um certo jeito de sorrir que eu tinha, por isso entendo o verso de Mário Quintana. Meu luto foi longo, se é que passou, e me recolhi por tempo suficiente para que novos escritores aparecessem na minha ausência, entre eles as poetas Ângela Vilma e Mônica Menezes, os ficcionistas Lima Trindade, Marcos Vinícius Rodrigues e Carlos Barbosa. Ao mesmo tempo, constatei com alegria a confirmação dos nomes que já me chamavam a atenção pelo talento, constatei a seriedade da literatura de Állex Leilla e Adelice Souza, por exemplo.
Voltei ao convívio entre escritores graças ao acadêmico, meu grande amigo, Luís Antonio Cajazeira Ramos, que conheci na época em que formamos um grupo, há mais de vinte anos, com os escritores Maria da Conceição Paranhos, Soares Feitosa, Malba Vellame e um grupo paralelo, também com Conceição Paranhos e os escritores Judith Grosmman e Ildásio Tavares.  Com Judith Grosmman, li passagens de seu próprio romance Meu Amigo Marcel Proust, em momentos plenos de intensa emoção. Outro grupo, não sei se chegou a ser um grupo, tinha como anfitrião o escritor Luís Claudio Daltro com seus jantares, e seus convidados, Ruy Espinheira Filho, Edivaldo Boaventura, Aramis Ribeiro Costa. Em um jantar naquela casa acolhedora, fui testemunha de como nasceu a crônica semanal intitulada Conversas, de Hélio Pólvora, no jornal A Tarde, com o convite do acadêmico Edivaldo Boaventura, então diretor, ao confrade.
E para mostrar como a Academia de Letras da Bahia teve influência em outro plano de minha vida, além de acrescentar um toque de romantismo, próprio de quem, como eu, gosta tanto dos romances ingleses, principalmente de Jane Austen, foi aqui que o acadêmico João Carlos Teixeira Gomes apresentou Aramis para Hélio e para mim. E foi aqui também que Aramis e eu começamos nossa história no dia da posse do acadêmico Florisvaldo Mattos; portanto, faremos 20 anos, Aramis e eu e a posse de Florisvaldo, no dia 23 de novembro.
É tempo de deixar de medir a minha vida às colherinhas de café, como no belo verso de T.S.Eliot, em “A Canção de Amor de J. Alfred, Prufrock” e dizer da literatura, de como sinto a literatura.
A literatura, como disse Aristóteles, por mostrar não o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido, amplia a visão do sujeito com relação a si mesmo e ao mundo, daí sua imponderável importância. O mais fascinante é que o assunto depende da escolha do autor, mas o tema resulta da interpretação do leitor. Os Lusíadas: o assunto de Camões é a viagem de Vasco da Gama às Índias. O tema, entre outras hipóteses, a expansão dos valores europeus pelo mundo. A Metamorfose, de Kafka: o assunto é uma transformação, mas o tema é o isolamento, a solidão, a misantropia, a alienação, o confinamento. Como coloca o crítico Ivan Teixeira, recentemente falecido, o assunto é consensual, já o tema pode ter variações quantos forem os pressupostos da leitura. A mesma coisa em perspectivas diferentes resulta em noções que se interpenetram e causam discussão. O conhecimento produzido pela literatura parte dessa subjetividade para entender o mundo pela sensibilidade. A literatura reafirma que o mundo imaginário tem o mesmo grau de importância que o mundo existente. Assim, a literatura cria uma nova realidade, gota após gota, nas vidas de seus leitores.
A coerência entre o tema e seu tratamento conquista a adesão estética, mas é o sentimento que gera a adesão emocional. Por exemplo, alguém que jamais se apaixonou obsessivamente, teria dificuldade em se interessar por um romance dedicado a uma paixão, como Servidão Humana, de Somerst Maugham, pois o sentimento lhe é totalmente alheio. O escritor espanhol Javier Cercas, no romance As Leis da Fronteira, diz que um livro é como um espelho, que não somos nós que lemos os livros, e sim os livros que nos leem.
Está no romance Submissão, do escritor francês Michel Houellebecq: “Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo, mas só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas ideias fixas, suas crenças; com tudo que o comove, o interessa, o excita ou o repugna”. Adentrando mais: “Então, é claro, quando se trata de literatura, a beleza do estilo e a musicalidade das frases têm importância; a profundidade da reflexão do autor, a originalidade de seus pensamentos não são de desprezar; mas um autor é antes de tudo um ser humano presente em seus livros porque os seres humanos possuem em princípio, à falta de outra qualidade, uma idêntica quantidade de ser, todos estão em princípio mais ou menos igualmente presentes”.
Sendo assim, um escritor não é maior do que outro, se eles estiverem no mesmo nível de excelência. A diferença, o que faz um leitor dizer que Auto de Fé, de Elias Canetti, é maior do que 2666, de Roberto Bolaño, é consequência da adesão emocional de quem está elegendo. Eu tenho uma lista dos 100 romances inesquecíveis no site de meu amigo, o poeta Goulart Gomes, lista esta defasada, porque ao longo dos anos há romances que já conseguiram mais adesão emocional de minha parte.
As palavras do crítico Lourival Holanda, no texto “Aventuras Críticas”, me impressionam de modo eminentemente adequado quanto à descrição sobre o analista literário. A crítica é o que se segue à leitura; uma reflexão sobre o sentido, depois do lido. É por esse viés reflexivo que a crítica pretende ser também um conhecimento (intuição, frequentação, aparato conceitual). O crítico, um leitor sensível em estado de atenção reflexiva. A crítica é uma invariante; um correlato da leitura. A crítica segue sendo uma atenção rigorosa às formas narrativas, às propriedades excitantes dos modos de dizer e assim detectar os índices acrescidos ao imaginário social. É necessário que haja crítica, por ser o sal da cultura. No julgar há certa impertinência, mas no abster-se, não há deserção intelectual? Desde meados do século 20, a crítica foi se exilando na própria especificidade, contida nos meios acadêmicos e, assim, foi deixando de ter um papel importante na formação de leitores e na divulgação de novas obras de qualidade.
Opto, no entanto, por não entrar nessa seara, prefiro entoar loas à crítica, tal como a proferida por Vladimir Nabokov: “Depois do direito de criar, o direito de criticar é o bem mais precioso que a liberdade de pensamento pode ofertar”. Ou, segundo Oscar Wilde, dizer simplesmente que a crítica é uma arte.
A cadeira 29
O Patrono da cadeira 29 é Agrário de Souza Menezes, talentoso parlamentar, grande orador na assembleia provincial, deputado, jornalista e dramaturgo, fundador do Conservatório Dramático, em 1857. Cultivou ainda vários gêneros literários, mas priorizou mesmo a arte dramática. Agrário de Menezes exerceu a advocacia. Viveu de 1834 a 1863.
O Fundador, Antônio Alexandre Borges dos Reis foi professor, autor de livros didáticos e educador, mestre em Corografia e História do Brasil, catedrático da cadeira na qual já ensinava, foi deputado estadual em duas legislaturas na primeira década do século XX. Escreveu diversas obras didáticas sobre História do Brasil e conseguiu concluir os livros Leituras Cívicas e Corografia do Brasil, antes de falecer em 1922.
O 2º Titular da cadeira 29, Manços Chastinet Contreiras foi médico, militar, jornalista, político, poeta e fino humorista dos ridículos da época, irônico e satírico. Entre suas produções e obras de teatro estão Papá Noel, Malvinda, O Castigo, O Mestre, Tântalo, O Tio Malaquias, Mil Novecentos e Trinta, todas comédias, registradas na Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. A poesia humorística de Teatro da Oposição é exemplar de sua marca. Faleceu em 1942.
O 3º Titular da cadeira 29, Colombo Moreira Spínola foi médico e professor. Faleceu no dia que seria agraciado, 7 de setembro de 1973, com a Medalha de Ouro de Prevenção a Cegueira, conferida pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Fundou, em 1942, a Fundação Santa Luzia, desenvolvendo-a e dirigindo-a até o dia de sua morte. Professor de Oftalmologia da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública e da faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. Foi fundador da Academia de Medicina da Bahia.
O 4º Titular da cadeira 29, Jorge Faria Góes foi promotor em Jeremoabo e em Vitória da Conquista. Exerceu também a função de magistrado. Escreveu três títulos: Gotas de Poesia, Louvação a Santo Amaro e Ronda Enluarada.
 
O 5º Titular da cadeira 29: Hélio Pólvora de Almeida.
Hélio Pólvora dizia ser um pobre homem de Itabuna. Nascido na fazenda Mirabela, no dia 2 de outubro de 1928, muito cedo o menino procurou compensar a solidão e o medo com as leituras, graças a atmosfera que sua sensibilidade absorvia; disse ele: “Quando o dia escurece, parece que estamos no fundo do poço da noite mais funda”. Ciente de seu temor, mas ciente também que a ambiência é importante, não foi apenas a solidão da fazenda que o levou aos livros, pois seu pai, Joaquim, comprava livros, e sua mãe Raquel encomendava livros a um mascate que varava léguas pela zona rural de Itabuna e arredores, no labor de entregá-los em fascículos mensais, além dele próprio, que economizava as moedas da marinete, viajando a pé para as cidades mais próximas para comprar livros da Civilização Brasileira, da Editora Nacional e da Editora Globo. Conviveu com os enredos de Alexandre Dumas e Eugène Sue e conviveu consigo mesmo. A dupla convivência começou a gerar o escritor. Primeiramente andando pela casa com um dedo espetado no ar, semelhando uma caneta a escrever nas paredes. Da infância eis suas belas palavras: “A infância é o melhor período da vida. Nele nos formamos, ou melhor, somos formados imperceptivelmente, às pinceladas, pelas tintas das circunstâncias. O resto é consequência”.
Eu costumo repetir que o resto da vida é nota de pé de página do que foi a infância. Seguramente devo ter lido isto em algum lugar, contudo Hélio disse sempre melhor. A importância da infância levou-o a tematizar, por meio de personagens nas suas travessias, carregando os conflitos, a passagem para a adolescência e a maturidade.
Fez a escola primária em Itabuna e Ilhéus e exame de admissão no Colégio 2 de Julho, em Salvador. No tempo em que estudava no Colégio Carneiro Ribeiro, lia cinco livros por semana, pois o vício da leitura já estava instalado. Ele confessou: “Sou viciado em leituras como tantos se viciaram em drogas”. Lembro Manuel Bandeira, no poema “Não sei Dançar”, de Libertinagem: “Uns tomam éter, outros cocaína...”. Hélio leu, leu muito. E tinha o hábito de anotar suas impressões e trechos significativos. Concluiu: “A literatura é tudo, é o sonho que doura a pílula amarga”.
Hélio Pólvora elaborou seus programas de leitura de ficção americana, inglesa, francesa, russa. Programas confessadamente planejados e conscientes do que buscava. Completado o curso colegial, Hélio passou três anos na direção de uma fazenda do pai e foi ali que, de tanto ler e reler Graciliano Ramos, acabou decorando capítulos de São Bernardo, Vidas Secas e Angústia. Um salto no tempo para contar uma curiosidade e mostrar como conservamos a essência vida afora: talvez mais de cinquenta anos depois, Hélio leu O Ano da Morte de Ricardo Reis, daquele que admiramos muito, do Nobel de Literatura de 1998, José Saramago. Ele leu, releu, releu e releu, foram quatro vezes; então, pegou sua amada Maria e seguiram para Lisboa. Hélio fez o caminho do personagem desde o Hotel Bragança até a estátua de Camões, imaginou a personagem Marcenda e sua mãozinha paralítica, mole. Enfim, viveu o livro. E ainda seguiram para conhecer o convento de Mafra e sentir também O Memorial do Convento e quase, quase, foram até Lanzarote apertar a mão de Saramago, não fosse o mau tempo impedir que o avião decolasse.
Voltando a fase do jornalismo em Itabuna e seus primeiros contos e primeiros ensaios, quando o jornalismo levou-o para o Rio de Janeiro e para as redações de quase todos os jornais famosos. Um dia, sim um dia determinado, concluiu que havia encontrado seu modo particular de expressão. É melhor usar as palavras do próprio Hélio: “Aconteceu uma noite em que reescrevia textos. A descoberta só afetou a mim; os companheiros continuavam, calados e indiferentes, na sua faina – aquela malta de copidesques fatigados, entediados, descrentes. Repetiu-se em mim aquele estado do Padre Vieira. E relendo um trecho de minha prosa, e repassando-o na língua, e sentindo-lhe o ritmo e a música interior, eu senti que a escrita, quando bem realizada, é uma joy of beauty, e que vale a pena cultivá-la, regando-a e nutrindo-a com os melhores adubos da memória e do imaginário, para que a vida passe a ter sentido”.
Foi no Diário Carioca, onde descobriu que aprendera a escrever. A partir do Diário Carioca, credenciou-se ao Jornal do Brasil, a outras redações, a colaborações permanentes como crítico literário na revista Veja e no Correio Braziliense. Sentou-se ao lado de Marques Rebelo e Nelson Rodrigues, no Última Hora, de Samuel Wainer e Nelson Pereira dos Santos, de Otto Lara Resende e Antonio Callado, de Agrippino Grieco e Adonias Filho entre tantos outros. Disse Hélio: “Todos, sem saber, deixaram marcas em mim, porque sempre procurei arar os meus terrenos, à espera de chuvas e sementes”.
Confessadamente autodidata, Hélio partilhava com o escritor russo Anton Tchekhov que a autoeducação que deflagra o autoconhecimento é o processo educativo por excelência. Assim, viu-se tradutor, traduziu mais de 80 títulos, viu-se crítico literário, viu-se contista.
Foram 32 anos no Rio de Janeiro, mas sempre destacou um momento de êxtase: alertado por um amigo, correu a uma banca e, trêmulo, folheou A Cigarra até chegar ao concurso nacional de contos dirigido por Aurélio Buarque de Holanda e Paulo Rónai, para encontrar o seu “Os Galos da Aurora”. Recorro as palavras do próprio Hélio para descrever o que ele sentiu: “Os elogios dos editores eram vinho forte, toldaram-me a cabeça”. E isso era apenas o começo, muitas vitórias ocorreram; por exemplo: o Prêmio Nestlé de Literatura agraciou Hélio Pólvora por duas vezes, em 1982 e em 1986, respectivamente com os livros de contos O Grito da Perdiz e Mar de Azov.
Outro momento dentro dos anos no Rio de Janeiro: admirador de José Lins do Rego, Hélio o seguia “como se segue um mito ou um profeta, um salvador nas areias do deserto”, então dizia. Também admirador de Graciliano Ramos, paixão esta mais forte ainda, desejava conhecê-lo. E eis o momento: Graciliano Ramos faleceu e foi velado na Câmara dos Vereadores. Hélio se postou ao lado do caixão a mirar de perto o escritor Graciliano e quando levantou os olhos, do outro lado do caixão, também a mirar o autor de Vidas Secas, estava José Lins do Rego.
Em 1984, deu-se a volta a Bahia, instalando-se primeiramente em Itabuna e depois em Salvador. Aqui, na capital, deu-lhe ganas de reler os russos. Repassou Tchekov, Tolstói e Turgueniév e Andreiév, repassou as origens do conto, suas interfaces teóricas e críticas, seus principais cultores estrangeiros e brasileiros. Mas, no final dos anos 90, retornou a Ilhéus para exercer o cargo de Presidente da Fundação Cultural de Ilhéus, na gestão de Jabes Ribeiro, embora estivesse em Salvador na maioria dos fins de semana.
Além da Academia de Letras da Bahia, Hélio ocupou a cadeira 13 da Academia de Letras do Brasil, com sede em Brasília, que tem como patrono Graciliano Ramos. Pertenceu ainda à Academia de Letras de Ilhéus. Teve duas editoras: Edições Antares, no Rio de Janeiro e a Editora Mythos, em Salvador, empreendimento nosso, dele e meu, que rendeu o livro Três Histórias de Caça e Pesca, do próprio Hélio, em edição bilíngue português e francês, e o livro de poemas Atelier de Poesia, do falecido poeta, já citado aqui, Daniel Cruz.
Uma palavra que, para mim, tem ligação direta com o conteúdo dos contos de Hélio Pólvora é epifania, um evento que altera o estado emocional. Era capital para ele colocar um momento epifânico em suas narrativas. Prezava igualmente a Teoria do iceberg de Ernest Hemingway, ou seja, o escritor experiente mantém a grande maioria do que sabe sobre seus personagens e situações enterrado sob a superfície. E o que na definição do escritor argentino Ricardo Piglia pode ser colocado da seguinte forma: um conto sempre conta duas histórias. O conto de Poe ou Quiroga, por exemplo, narra em primeiro plano a história um e constrói em segredo a história dois. A arte do contista consiste em cifrar a história dois nos interstícios da história um. Uma história visível esconde uma história secreta, narrada de um modo elíptico e fragmentário. O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta aparece na superfície.
Desde a estreia, em 1958, com a coletânea Os galos da aurora, Hélio Pólvora seguiu sempre aprofundando e alargando o seu conceito de conto literário: sua história curta não é mera anedota, não se resume a peripécia ou mero incidente; é o conto artístico, porque a literatura é, para ele, arte aberta a investigações e aventuras. Pode parecer exagero, mas qualquer conto de Pólvora, ou quase todos, escolhido ao acaso dentre os mais de 120 que escreveu, é um texto denso que preza o verossímil, ao mesmo tempo em que deflagra a sugestão e instiga o leitor a descobrir o que há na parte submersa do relato. Por seu muito saber do quanto “viver é negócio muito perigoso”, conforme anotou João Guimarães Rosa, o contista Hélio Pólvora não permite que se lhe escapem circunstâncias e vicissitudes eloquentes; garante ao leitor, se entusiasmado ou cúmplice, estupefato ou indignado, mais de uma leitura, segundo planos narrativos insinuados ou interpostos, e mais os protagonistas que narram e são narrados. Ao seu modo, ele define: “Escrever é um ato que pressupõe beleza, filosofias amadurecidas, reflexões adensadas e um estado de fúria ou de pureza, com o ódio de um guerrilheiro muçulmano ou com a doçura de um pastor de almas perdidas, mas sempre naquele instante especial em que nada mais se poderia fazer além de estender a mão para colher no escuro a maçã – aquela maçã de Clarice Lispector”.
A vasta obra de Hélio Pólvora abarca quase 20 títulos de coletâneas de contos, dois romances, sete volumes de ensaios críticos, quatro volumes de crônicas e dois de poemas. Incontáveis antologias trazem seus contos. Em 2013, a Coleção Mestres da Literatura Baiana, da Assembleia Legislativa e da Academia de Letras da Bahia, publicou dois volumes intitulados Contos e Novelas Escolhidos, organizados pelo próprio escritor. A Editora Casarão do Verbo, também em 2013, reeditou cinco títulos importantes da obra polvoriana.
Tenho a honra de ter sido sua crítica oficial, assim ele se referia a mim, resenhando seus livros, sempre a pedido dele, como foi o caso dos dois romances, Inúteis Luas Obscenas e Don Solidon, ambos editados pela Casarão do Verbo. Tive a honra de ler os mesmos livros que ele, seja por indicação dele, seja por indicação minha, ou por uma escolha concomitante, porque gostávamos de comentar depois da leitura. Elegemos O Museu da Inocência, do turco Pamuk, Nobel de Literatura de 2006, como o grande romance da primeira década do século XXI. Destacamos a literatura do escritor irlandês John Banville como o nosso mais recente vício e ele chegou a ler 2 dos livros da trilogia, leu o meu exemplar de Luz Antiga e chegamos a comparar com outro romance de Banville, O Mar. Quando ele se foi, eu estava lendo Sudário, o último romance da trilogia. Ao terminar, ainda me ocorreu por um segundo ligar para Hélio. E senti o choque na sua real dimensão: perdi meu interlocutor, perdi meu amigo. Digo agora, como costumava dizer no final das nossas conversas telefônicas: “Você sabe, Hélio, que mora no meu coração”.
Falei muito em leitura, leituras, falei muito de Hélio Pólvora e de mim e da paixão pela leitura que nós partilhamos. Finalizo como comecei, com Jorge Luis Borges, pois não tenho dúvidas sobre essa afirmação: “Creio que uma forma de felicidade é a leitura”. E para honrar minha origem grega: Efharisto poli. Muito obrigada. 
 
 
 
Gerana Damulakis é bacharela em Química pela Universidade Federal da Bahia, pós-graduada em Plasticos y Caucho pelo Instituto Juan de la Cierva e em Ressonancia Magnética del Carbono 13 pela Universidad Autónoma de Madrid. Colaborou com o Suplemento Cultural do jornal A Tarde, assinou a coluna semanal Leitura Crítica no Caderno 2 de A Tarde, assinou a coluna Olho Crítico no jornal Tribuna da Bahia. Integrou a comissão editorial do Selo Letras da Bahia, desde 1998 até seu término. Publicou os títulos: Guardador de Mitos (1993), Sosígenes CostaO Poeta Grego da Bahia (1996), O Rio e a Ponte – À Margem de Leituras Escolhidas (1998) e organizou a Antologia Panorâmica do Conto BaianoSéculo XX (2004). Eleita no dia 13 de julho de 2015 para a Cadeira número 29 da ALB.
Discurso de posse da acadêmica Gerana Damulakis na Cadeira número 29, proferido em sessão solene, no Salão Nobre da Academia de Letras da Bahia, em 3 de setembro de 2015.

(na foto, Gerana com o imortal Aleilton Fonseca)
 
 
Gerana Damulakis
Enviado por Goulart Gomes em 17/11/2015


Comentários