Território Inimigo
Literatura, História, Museologia e Numismática. Sítio de Goulart Gomes, o criador do Poetrix.
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SOCORRO
 

— Socorro! Cheguei! Onde você está?
— Aqui, no chuveiro – responde uma voz distante e abafada, distorcida pelo som das gotas colidindo contra o box.
 
Marcelo entra no banheiro. Nunca deixavam as portas trancadas. No primeiro momento, o susto de vê-la nua, tomando banho com Jasmim, que espalhava xampu em seus cabelos, carinhosa como um jóquei afagando a crina da sua montaria. Depois, o encantamento de ver as duas numa relação tão íntima e harmoniosa, como irmãs.

Socorro não esboçara a menor objeção quando, há oito meses, Marcelo lhe falara do desejo de trazer sua irmã para morar com eles.
 
— Desde que nossa mãe morreu, a relação dela com nosso pai está cada dia pior. Honorato é muito possessivo, controlador, e Jasmim já tem 17 anos, é quase uma mulher adulta, não pode ser vigiada o tempo todo. Além disso, acho que a falta de uma presença feminina em casa a está afetando. Ela está com uns modos rudes!
— Eu entendo, Marcelo. Também já tive essa idade! Mas, para não causar constrangimentos, diga a seu pai que é só por uns tempos. Senão, ele pode se sentir ofendido.
— Boa idéia, Socorro. Farei isso.
 
Jasmim foi recebida com todo carinho. Maria do Socorro precisava, mesmo, de uma companhia, devido às habituais viagens do marido, a serviço. Principalmente à noite, quando acabado o jantar e todas as novelas, a solidão se fazia assassina. Entenderam-se logo, como duas antigas amigas. Em pouco tempo já trocavam segredos e intimidades.
 
— Estou namorando um rapaz na escola, Socorro.
— É mesmo? Que legal! Qual o nome dele?
— Rodrigo.
— E como ele é?
— Tem a minha idade. Negro, forte, muito inteligente.
— E transa bem?
— Que é isso, Socorro! Eu sou virgem!
— Mesmo? – quis confirmar Socorro, de olhos arregalados.
— De verdade! Estamos apenas de beijinhos e abraços.
— Você nem conferiu a “armadura”?
— Bem, quando ele me aperta eu sinto. Mas é só isso.
— Se você acha melhor assim, não serei eu a lhe dar maus conselhos. Faça o que seu coração mandar.
— Obrigada, Socorro. E você, casou virgem com meu irmão?
— Não, Jasmim. Eu tive outras experiências, mas Marcelo foi o primeiro homem que me tirou do sério.
 
Estabelecia-se uma cumplicidade entre as duas, a partir das suas confidências. Jasmim contava a Socorro detalhes da vida familiar de Marcelo e esta lhe contava os hábitos sexuais do marido. Completavam, assim, informações sobre o homem que igualmente amavam, revelando uma face que só a outra conhecia. E quanto mais o conheciam mais o amavam, tornando-o um elo que as unia, um homem que de formas diversas compartilhavam.
Pela manhã, Socorro era a primeira a se levantar. Preparava o café, colocava-o à mesa e só depois ia despertar Jasmim. Passava delicadamente a mão sobre a parte do seu corpo que estivesse despida do lençol: os ombros, as coxas ou simplesmente a face. O primeiro olhar do dia de Jasmim era para ela, e isso lhe provocava, imotivadamente, uma alegria incontida. Quando o Sol era mais forte, ela fechava as cortinas para que a claridade não incidisse abruptamente sobre as retinas da menina... fazia com que seu despertar fosse suave.
 
— Bom dia, Jasmim! Hora de acordar! - dizia baixinho. — O café e a escola lhe esperam... necessariamente nessa ordem.
 
Já algumas semanas depois da sua chegada, Socorro se habituara a retardar o hábito de escovar os dentes logo ao levantar. Mas, antes de acordá-la, lavava a boca, para tirar o "gosto de ontem". E iam as duas apanhar suas escovas - não raro trocadas - colocar a pasta de dente e caminhar pela casa, conversando, espumando e dando risadas. Arrumavam-se os cabelos, trocavam opiniões sobre colônias e cosméticos. Após o café, Socorro levava a amiga até a porta, já com saudades.
Quando Marcelo estava em casa, sempre acordava um pouco depois, deixava-se descansar. Preferia chegar um pouco mais tarde ao trabalho e sair depois da hora. Socorro enfiava-se sob seu lençol e o provocava a sair da cama. Mas a sua verdadeira intenção era a do breve orgasmo matinal. Marcelo sabia disso, ambos sabiam, mas brincavam de fingir ignorância. O amor sempre requer o novo. E se enroscavam e se encaixavam, com a fome de um desjejum.

Quando ele ia para a mesa, ela ia para o chuveiro, e ficava meia hora sentindo a água encharcar o seu corpo rijo. Ele, enquanto se arrumava, admirava, pelo espelho, a relação de afeto de Socorro consigo mesma. Ela sabia. Dava-lhe as costas e continuava, sabendo-se observada e desejada. Marcelo olhava com volúpia água e espuma escorrendo por sua coluna, entre as suas nádegas. Uma ou outra vez não resistia:  tirava toda a roupa e entrava no box.

Almoçavam juntas todos os dias e Jasmim lhe falava sobre a sua manhã. Socorro relembrava sua época de estudante. Depois, deitavam-se na rede, pernas entrecruzadas e deixavam-se pendular calmamente, até que o sono as roubasse. Cochilavam até meados da tarde.

Várias vezes Socorro a auxiliava nos estudos, naquilo que ela sabia de melhor: matemática e física. Jasmim sentava-se ao seu colo e ficavam as duas, fingindo ser Lákshimi, quatro braços sobre os cadernos e livros, trocando lápis e canetas entre as mãos, os cabelos compridos, ruivos e castanhos, a se misturarem, os rostos tão próximos, as duas quase que ocupando um mesmo lugar no espaço.

Das roupas, cuidavam juntas, e só não usavam as mesmas pela diferença de números nos manequins: Socorro, 40; Jasmim, 38. Dedicavam um cuidado especial às calcinhas, lavadas, enxaguadas, perfumadas e arrumadas zelosamente nas gavetas.
E assim como o verão aproxima os corações, o inverno aproxima os corpos. Em um dia de relâmpagos e trovoadas, quando a chuva caía ricocheteando pingos no telhado e vidraças, Jasmim, agitada como uma criança, empurrou lentamente a porta do quarto de Socorro. Nunca deixavam as portas trancadas. Deitada, ela ainda não dormira, amargando a ausência do corpo de Marcelo, na cama.
 
— Socorro, não consigo dormir! Estou tremendo dos pés à cabeça. Morro de medo dos relâmpagos!
— Venha. Deite aqui, comigo.
 
E entre mimos e afagos, acalmaram seus temores e dormiram silenciosas até o amanhecer. Nos dias que se seguiram, não viram porque não continuarem dormindo juntas, sempre que Marcelo não estava em casa. Aqueciam-se unindo os corpos, para espantar o frio. Jasmim chegava a torcer para que Marcelo viajasse mais, para não ter que dormir sozinha. Depois, quando chegaram os dias de calor, o hábito já se enraizara: aquiesciam em não conseguir mais dormir separadas. Mas, então, já não era cabível usar os pijaminhas floridos nem as meinhas felpudas nos pés. Dormiam seminuas, cada qual do seu lado da cama.
 
— Vamos fazer uma farra, Jasmim? – propôs, certa vez, Socorro.
— Como assim? Aonde vamos a uma hora dessas?
— A lugar nenhum, sua boba! Aqui mesmo. Me deu uma vontade tremenda de tomar um vinho. Que tal?
— Que foi que deu em você, Socorro? Você não é de beber assim, à toa!
— Sei lá! Me deu uma vontade de brindar à vida! Comemorar! Celebrar!
— Tá bom, eu lhe acompanho. Mas só uma tacinha.
 
Beberam, brincaram e riram até caírem bêbadas. À madrugada, Socorro assustou-se com o vento frio que entrava pela janela entreaberta. Sentiu o corpo morno de Jasmim, o duro bico do seio esquerdo tocando em suas costas, os pelos das coxas e ventre lhe roçando. Levantou, fechou a janela. Jasmim também acordara. Socorro atordoou-se ao vê-la completamente nua, em toda a exuberância do frescor e intensidade da juventude, um corpo como era o seu, há alguns anos, quando se acariciava, sob o chuveiro, até estremecer de  prazer.
 
— Vem deitar, Socorro!
 
Socorro se deita, mas não ao seu lado, e sim sobre ela, seios sobre seios, ventre sobre ventre, olhos sobre olhos.  Jasmim entreabre os lábios e acolhe, terna, o beijo da amiga. Pela manhã, o cheiro agridoce do suor feminino perfumava a casa, mais forte que essência de tangerina.  Até quem passasse à porta da casa poderia percebê-lo. Não demoraria a que os vizinhos da Rua Paraíso começassem a comentar sobre as moças do 41.
 
*     *     *     *     *
 
Com a cabeça no colo de Socorro e os pés no colo de Jasmim, Marcelo se sentia o mais privilegiado dos homens. Abençoava o dia em que tivera a feliz idéia de trazer a irmã para morar com eles. Percebia, agora, como sua mulher precisava de uma companhia. A casa estava mais bonita, mais alegre, podia ser sentida uma energia diferente no lar. E agora, com duas mulheres a tratá-lo como um rei, nem triste nem poeta, sentia-se alegre e sua vida estava completa.

Infelizmente dali a poucos minutos teriam um encontro marcado com Rodrigo. Ciúmes? Talvez sim. O principal é que não queria nada interferindo em sua paz, mas também não tinha o direito de atrapalhar a felicidade da irmã. Foi ideia dela apresentar sua reduzida família ao namorado. Marcaram, então, o encontro em um barzinho para aquela noite.
 
— E se Marcelo não gostar dele, Socorro? – perguntou Jasmim, preocupada.
— Quem tem de gostar dele é você, Jasmim. Deixe o Marcelo comigo! – respondeu a solícita amiga.
 
Mesmo às amigas mais íntimas nem tudo é dado conhecer. Socorro preferira não contar a Jasmim o quanto Rodrigo lhe lembrava um antigo namorado, ainda dos tempos de faculdade. Ele lhe deixara algumas sequelas emocionais, com seu jeito ríspido de fazer amor, quase violento. Mas ela estava apaixonada, e se permitira ser maltratada a um nível sadomasoquista. Lembrava-se: movimentos bruscos, cicatrizes nos seios, acessórios dolorosos. Após terminarem o  relacionamento, Socorro levou um bom tempo sem querer saber de homem nenhum. Achava-os uns sádicos, insensíveis, que pouco se importavam com o prazer de quem estava ao seu lado. Só queriam saber do próprio pênis. Pensam com a cabeça de baixo, dizia. Consolava-se ouvindo músicas de Chico Buarque, entre uma e outra dose de conhaque, mas ainda desejando que existisse um homem só na face da Terra com aquela capacidade de compreender os sentimentos de uma mulher. Marcelo não era nenhum poeta mas, ao menos, tinha uma boa “pegada”. Seu sexo era suave, soube penetrá-la com ternura, como nenhum outro homem havia feito antes. Ela adorava controlar os movimentos, e ele adorava que ela fizesse isso. Entenderam-se desde os primeiros encontros. Encaixavam-se perfeitamente e deixavam-se levar pelos oscilantes movimentos dos quadris. Sentia-se plena e isto era-lhe o suficiente.

A noite transcorrera agradável. Sentados frente-a-frente, os dois casais conversaram e beberam até pouco mais de meia-noite. Marcelo sempre a observar, com um misto de ciúme e inveja, os olhares e beijos trocados por Jasmim e Rodrigo. Saciava-se nos lábios de Socorro, que percebia a sua inquietação. Ao final, Rodrigo fez questão de acompanhá-los até em casa, desculpa para ficar um pouco mais ao lado da namorada.
O jovem casal instalou-se na sala. Socorro arrastou o marido, sussurrando: “Vamos deixar os dois namorarem em paz”. Da suíte, ouviam nitidamente a conversa e os risos do casal. Rodrigo insistia para que eles aproveitassem que estavam sozinhos e transassem ali mesmo, no sofá. Jasmim, ainda sem revelar sua castidade, dizia que tinha medo, que eles poderiam levantar a qualquer momento. Ele quis se aborrecer e, então, ela lhe propôs uma compensação. Rodrigo gemia, enquanto a boca de Jasmim parecia querer devorá-lo.
 
— Aonde você vai, Marcelo?
— Tomar um banho, não aguento mais ficar ouvindo essa trilha sonora.
 
Vinte e cinco minutos depois ele saía do banheiro conjugado ao quarto. O silêncio e a escuridão eram totais, o que significava que Rodrigo já teria ido embora. Aproximou-se da cama devagar, evitando tropeçar ou esbarrar em algo. Tateou o seu lado da cama e percebeu duas pernas. Certamente Socorro deitara do lado errado. Desviou-se para o outro lado e sentiu que ali também havia outras duas pernas. Nunca deixavam as portas trancadas.
 
— Jasmim pediu para dormir conosco. Você se importa?
 
Marcelo recuperou-se do susto e mal conseguiu gaguejar um “claro que não”. Deitou-se entre as duas, meio desajeitado, ventre para o alto. Só então se dera conta de que não havia vestido absolutamente nada. Lembrou-se dos tempos em que era criança, das vezes em que tomou banho nu com a sua irmãzinha. Mas isso já fazia muito tempo. Socorro apoiou a cabeça no lado esquerdo do seu peito; Jasmim fez o mesmo do lado direito. Seus rostos a poucos centímetros um do outro. Podiam sentir o coração acelerado do homem que amavam. Então, as duas aproximaram os lábios e beijaram-se carinhosamente. Marcelo não sabia o que fazer, entre o espanto e a vertigem. Amava aquelas duas mulheres e só agora percebia o quanto ambas igualmente se amavam. Depois, cada uma o beijou com igual ternura. Cruzaram as coxas sobre ele, envolvendo-o em braços e pernas. Marcelo sentia-se abarcado por um mar de volúpia, sensualidade e desejo. Logo, mãos começaram a percorrer o seu corpo e era-lhe impossível distinguir a quem pertenciam. Pela primeira vez sentiu uma duplicidade de ventres lhe roçando. Suportaria sentir o dobro de prazer? Fechou os olhos, aspirou o inebriante cheiro do Dolce & Gabana e se deixou levar.
 
— Vou buscar umas cervejas na geladeira. Acho que vamos precisar molhar a garganta – disse Socorro.
 
Pela manhã Marcelo lembrava que, ao longo da madrugada, sonhara penetrar, por diversas vezes, em corredores apertados de um labirinto, do qual nunca se podia escapar, mas que isso não lhe provocava nenhuma apreensão. Ele era um ser fantástico: um tigre de dente de sabre, um minotauro ou qualquer coisa assim. No lençol, uma rosa vermelha, tingida a sangue, indicava que ali nascera uma mulher. Socorro e Jasmim o esperavam, na sala, para o café. 




Conto premiado no 12 Concurso Nacional Josué de Castro, na 14a. Jornada Nacional de Literatura, Passo Fundo, Rio Grande do Sul, 22-08-2011.
Goulart Gomes
Enviado por Goulart Gomes em 23/08/2011
Alterado em 24/08/2011
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