Território Inimigo
Literatura, História, Museologia e Numismática. Sítio de Goulart Gomes, o criador do Poetrix.
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MOIRA, a Lenda
 
Would you hold my hand
if I saw you in Heaven? (1)
 
 
Eu sou Baasroth, Borges, e já fui chamado de muitos nomes: Asura, Ahriman, Liki, Djin, Iblis, Baal, Anjo Decaído, Incubo, Mente, Sombra, Id, Inconsciente. Mas, em verdade, digo que sou apenas um em você, assim como Ela e os Três Arcanos, e hoje vamos levá-lo a Ctonis, a terra sem chão, reino de Kayroz, que todos precisam conhecer. Desperte.
 
Súbito aquela mulher loura de quase um metro e oitenta, bustos fartos e corpo escultural invade sua oficina de subúrbio e pergunta se você pode dar uma mãozinha. Que droga, Borges, você sabia que isso não iria dar certo. Logo agora que você estava com síndrome de abstinência sexual há quase quinze dias, sem ver sua namorada por causa daquela briga besta na gigantesca fila da hamburgueria do chópingue superlotado, na antevéspera do Natal, para comprar um duplo-x-qualquer-coisa ou não. Lógico que por uma loura daquelas você daria muito mais que as duas mãozinhas. Mas, enfim, o problema era apenas um cisco no carburador do Karmann Ghia 1970, com  motor de 1.600 cilindradas  e 50 cavalos,  que estava fazendo o carro interromper a cada dois quarteirões e você se perguntando como uma loura daquelas podia andar por aí em um Karmann Ghia - todo equipado, é claro! – podendo tirar de um desses bestalhões ricos, carecas e barrigudos tudo o que quisesse sem ter que dormir com ele mais do que uma vez por quinzena.

A loura ficou ali sentada no sofazinho encardido, com as compridas pernas cruzadas, lendo uma edição amarrotada da Veja de cinco semanas atrás, deixada por um cliente bacana, socialmente correto, com a esperança que alguém se interessasse pela matéria de capa sobre o último escândalo político. O faturamento mal dava para pagar os ajudantes, quanto mais assinar revistas! Mas o certo, Borges, é que você não pensava em outra coisa durante as duas horas bem contadas e prolongadas que durou o serviço a não ser no que seria capaz de fazer com aquela mulher sob os lençóis. Ela era tão fantástica que você nem teve coragem de dar um daqueles seus olhares cheios de malícia que já funcionaram em tantas situações e muito menos um dos seus cartões de visita impressos na gráfica rápida da esquina onde só se lia seu nome e um número de telefone celular. Borges, você cobrou um preço ridículo pelo serviço só para ver se cativava a cliente, mesmo sabendo que aquele seria apenas um atendimento de emergência e que ela nunca mais daria as caras por aquelas bandas.

E aí, Borges, depois que todo mundo foi embora, às dezenove horas você baixou a porta de enrolar de zinco, trocou o macacão mais manchado que cadeira de lotação por uma camiseta psicodélica e uma bermuda,  que já fora uma calça jeans, catou o último cigarro amassado do maço e saiu com a certeza que somente um trago no bar do Tércio poderia aliviar a chatice de mais um dia entre óleos lubrificantes, ferramentas e fedor de gás carbônico. Seu único prazer na vida talvez fosse mesmo sentar ao volante do seu Ford Maverick GT 1974 preto e amarelo, de bancos brancos, lentamente reformado com peças originais e ouvir o ronco do motor ainda possante. Só na saída é que você percebeu como a loura parecia com a modelo totalmente nua recostada no capô de um Mustang vermelho no mês de maio do enorme calendário pendurado na parede da oficina.

Em plena terça-feira aquele bar ainda era um lugar tranquilo, bem diferente da balbúrdia em que se tornava de quinta a domingo quando todos os amigos das redondezas resolviam se encontrar para falar das tragédias da semana ou dos resultados do campeonato de futebol. Sentado na sua mesa preferida, Borges, você ficou ali olhando quem entrava e quem saía até ficar bêbado o bastante para somente conseguir chegar em casa, quatro esquinas depois.

Ainda não era meia-noite quando você viu aqueles coroas de roupas estranhas e medalhões dependurados no pescoço do outro lado do bar, olhando para você. Pode ser coincidência ou não, talvez apenas consequência dos vários copos de conhaque que você já tinha tomado, mas foi logo após  você os perceber que as coisas começaram a ficar confusas. Havia muita névoa no ar, talvez apenas fumaça de cigarro, você nem sabe se alguém estava fumando alguma porcaria ali por perto, mas de repente tudo ficou sem noção: já não havia garrafas, mesas, cadeiras, balcão, apenas três velhos sorrindo e sumindo na neblina. Borges, você estava e não estava ali e tudo era calmo, verde e espaçoso. Eles mandaram que eu saísse de fininho e assumiram o controle. Uma eco, além da sua voz, sussurrava dentro da sua cabeça meio entorpecida pelo álcool. 
 
Os Velhos Arcanos disseram: “acompanhe Moira”, e não pode haver objeção às suas determinações. Eles possuem um poder hipnótico que nos impede de fazer qualquer coisa que os contrarie. E, ao mesmo tempo, você estava plenamente consciente que não agia por vontade própria, mas como um autômato conduzido,  seguindo o caminho que lhe foi designado. Eles sempre sabem.

Impossível não segui-La. Impossível não querer seguir uma Mulher assim. Seus cabelos luziam como raios, abrasando o espaço, e Seus olhos de esmeralda transmutavam toda angústia em calmaria. Mas, acima dos presságios existe a realidade de que Ela não precisa de seguidores. Ela não precisa de nada, nem de ninguém. É pura plenitude.

Eles sabiam: a recompensa é também castigo. Eles sempre brincam. Ela é quem provoca as marés com o Seu movimento e dá a direção das nuvens com a Sua respiração. Quem move as placas tectônicas com a sua dança e faz os vulcões entrarem em erupção, com a sua energia. Tudo brota sob a planta do Seu pé direito; e sob o esquerdo, toda vida morre. Com a Sua mão direita ela oferece, realiza todos os Seus sonhos; e com a esquerda o leva de volta e o lança ao sono eterno. E não há como romper este vicioso círculo, porque todos sabem que é melhor ser e depois perder, que nunca ter havido.

É, Borges, você estava achando que bebera além da conta, mas não havia nenhuma sensação de embriaguez. Era tudo lucidez e eternidade.

Histórias fantásticas nunca fizeram parte do seu cardápio, Borges. Desde a infância aquelas coisas de Lobo Mau e Chapeuzinho  e Príncipe Encantado e Cinderela nunca lhe convenceram e Moisés sempre lhe pareceu tão real quanto Netuno. Você é um mecânico dos bons, Borges, que gosta dos filmes de Bruce Willys e Chuck Norris e não dessas coisinhas frescas de outros mundos.
 
Disseram: Apazigúe-se. Do ventre dEla emana um cheiro de jardim florido, a própria fonte da vida. Dos himalaias dos Seus seios escorrem néctar e ambrosia. (Alguém está tocando Tears in Heaven?) Então, Moira abriu os braços e o envolveu em Seu manto diáfano, cor de amanhecer e amargura. Entorpecer de ópio e ódios esquecidos. Primeiro Ela apoiou  sua cabeça no colo e ao passar os dedos entre os fios do seu cabelo, acariciando suavemente a pele que lhe recobre o crânio, tudo foi amnésia. Pais, filhos, amores e amigos desapareceram gradualmente, como névoa. Nada, a não ser Aquele rosto, restou em sua memória. Então, Ela devorou os seus trajes e banhou o seu corpo com essências de outras dimensões, de aromas que você jamais poderia supor existirem. Flutuando a sete palmos acima do chão, você perdeu toda a noção de volume, espaço e tempo. Na pele sentiu o calor do sol, a suavidade do ar, a saliva salgada do mar e o roçar  dos grãos de areia. Um com todos e nenhum deles. Estar em toda parte e em nenhum lugar. Logo, livre e preso a todos os sentidos, como se fossem um só, sentir a proximidade do corpo dEla, metade quente como os amores da primavera e metade frio como o gelo dos abandonos. Déjà Vu! Cada fio dourado dos Seus pelos lhe provocando gozo e calafrios. Ela traz a cada milímetro do seu corpo um profundo e simultâneo êxtase, implosão de átomos, milhões de megatons, matéria e antimatéria enfim reunidas. Big-bang, começo e fim do mundo em um milésimo de segundo. Eterno tombo para o precipício. Profunda paz e compreensão. Ela sabe ser insustentável à sanidade dos mortais. Nada a relembrar e nenhum porvir. Nada mais a desejar. Seja feita a Sua vontade. Haveria melhor forma de não existir?
 
No crepúsculo, Ela abriu as janelas no topo da catedral, e afirmou: “Somos Livres!” (e quem disse que a Liberdade é um prêmio?) e lhe convidou para saltar (e quem quer a liberdade da solidão?). Ela disse: “Borges, você é pequeno e medroso, como todos os mortais feridos”, abriu os braços, elevando-os em arco para os céus. Desvaneceu no ar, como surgiu, deixando tatuado no seu corpo o signo dos servos humildes e felizes.
 
Borges, ausência é assim, presente em tudo; cada espaço preenchido por fragmentos de memórias que escapam pelas fissuras, enganam os sentidos todos e impõem-se como vírus que não vemos flutuando entre os gerânios. Nada à esquerda, nada à direita. Quem pode querer melhores companheiros que travesseiros? Não usurpam o lençol, relegando-nos ao frio da madrugada. Não esquecem a luz do abat-jour acesa, a porta do guarda-roupa aberta, a gaveta do criado-mudo entreaberta na exata altura do seu joelho. Por entre a persiana, as estrelas fatiam sua luz. E piscam. No breu da noite parecem estar sozinhas, mas planetas giram à sua volta, enamorados, eternamente presos às suas órbitas. Suas pálpebras pesam, mas dormindo você não consegue sonhar.
 
Às seis da manhã o sol invade seu quarto e chicoteia o seu rosto. Borges, eu sei que você vai praguejar por onze minutos, mas depois vai relembrar muitas vezes tudo o que aconteceu e nunca mais voltará a encher a cara naquele buteco sem futuro. Sempre estaremos por perto.
 
Beyond the door there's peace I'm sure.
And I know there'll be no more tears in Heaven.(2)

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Na mitologia grega, as moiras eram as três irmãs que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos. Eram três mulheres lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos. Durante o trabalho, as moiras fazem uso da Roda da Fortuna, que é o tear utilizado para se tecer os fios. Moira, no singular, era inicialmente o Destino.

(1) Você seguraria a minha mão, se eu o encontrasse no paraíso?
 
(2) Além da porta há paz, estou certo. E eu sei que não haverá mais lágrimas no paraíso.
(Versos da música Tears in Heaven, de Eric Clapton e Will Jennings)



Conto premiado no 12 Concurso Nacional Josué de Castro, na 14a. Jornada Nacional de Literatura, Passo Fundo, Rio Grande do Sul, 22-08-2011.
Goulart Gomes
Enviado por Goulart Gomes em 23/08/2011
Alterado em 15/03/2016
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